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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O QUE É O POETA?




O que é o Poeta? Quem é o poeta?
Você?
Eu?
O poeta tem a sensibilidade para discernir os profundos sentimentos humanos.
O poeta é um tradutor interprete, ele expõe em palavras o que o coração vislumbra sem saber se explicar. Ele cristaliza, materializa, os amores escondidos nos íntimos compartimentos do coração, onde a ninguém se permite ter acesso, senão o dono dos acessos recôndidos.
Nossos amores, nossas paixões, as escondemos muito bem, por que temos a impressão que nos tornamos vulneráveis, e ficamos sem jeito de falar a ninguém, duvidando que seremos entendidos.
Por que temos vergonha de falar sobre nossos sentimentos, escondendo-os muito bem num lugar secreto, inalcançável?
Inalcançável, não para o poeta que não tem vergonha de achar as palavras exatas, e está sempre disposto a nos revelar.
O que é o Poeta? Quem é o poeta?
Você?
Eu?
Pode o poeta entender de sentimentos, porque ele também tem os mesmos sentimentos? Ou tem sentimentos mais sublimes, aflorados?
Todo homem é poeta quando está apaixonado. disse Platão. Ou será que todo poeta de alguma forma está apaixonado? Escreve o que com ele acontece em seu coração, ou inventa sentimentos que por um acaso queima outro coração? Sente realmente, ou finge sentir. Se até a dor ele é capaz de ornamentar com palavras belas, é de sua própria dor que se revela?
Se um poeta consegue expressar a sua infelicidade com toda a felicidade, como é que poderá ser infeliz? disse Mário Quintana.
Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança, escreveu William Shakespeare.
O que é o Poeta? Quem é o poeta?
Você?
Eu?
O Poeta respira palavras, mas não são quaisquer palavras. Palavras ás vezes sem nexo, ás vezes arremessadas no papel. Uma palavra apenas, sentimentos. Amor, paixão. Palavras ás vezes sequer não ditas, não escritas ou se escritas, no silêncio do poeta. O silencio do poeta.
Amores escondidos, cultivados, feridas mal tratadas, incuráveis, com rimas até.
A poesia é arte, o poeta é coração.
Não fique constrangida com teus sentimentos, o poeta os valoriza, entende sua angustia. O poeta sabe que não surgem da noite para o dia, mas são o acúmulo de admiração, merecida ou não, o acúmulo de pequenos momentos de atenção, consideração. Se ninguém mais entender, o poeta o fará.
O que é o Poeta? Quem é o poeta?
Você?
Eu?
O silencio poderá perdurar, pois o que se demorou para desenvolver, florescer, tampouco irá desvanecer. Esconder-se talvez, mas morrer. . .
Nisto o Poeta é amigo do tempo. O tempo faz crescer e inevitavelmente desvelar, posto que é chama.
Se há amores impossíveis, há inocência da admiração discreta, da guarda, da espera. Se lhe diz impossível, talvez seja mesmo perene. Se impossível que reste a esperança. Que reste um louco, um poeta, um amante. Menos que isto, um sonho, amor e fantasia.
Que o Poeta se encarregue de traduzir. Ou de abrilhantar o belo apenas em linhas num papel, num caderno, escrita como em fumaça que se desmancha subindo no ar.
Ou que desperte a coragem de viver o prazer de se entregar a um grande amor.
O que é o Poeta? Quem é o poeta?

(Fernando Kieuteka ' Kieltyka')

A LUZ NA ESCURIDÃO


A LUZ NA ESCURIDÃO
1
Até meus vinte e poucos anos eu via tudo
Fiz viagens vi estrelas escuridão e céu profundo
Vi as cores vi a as luzes vi “as gentes” pelo mundo
2
Conheci cidades vi maldades um mundo imundo
vi corpos sarados sepulcros caiados enterrados bem fundo
E à toa também vi gente boa tudo num segundo
3
Vi seres doentios vi tiros perdidos mortos esquecidos
Vi seres errantes vi amantes diamantes empedernidos
Vi seres insensíveis empecidos de olhares empobrecidos
4
No som de cachoeiras nas serras e na planície costeira
Vi o tempo vi o vento passeando e levantando poeira
Vi a chuva vi a neve vi casas sem eira nem beira
5
vi o arco íris na íris dos olhos vi amores em sete cores
vi a chuva cair a lagrima vazar verter em sete dores
mas vi o sorrir sem mentir o desabrochar de sete flores
6
Minha amada me deu sua mão seu carinho e atenção
Me deu a lua me deu o sol o brilho num caracol de emoção
E filhos meu maior presente as sementes no coração
7
E nos seus olhos amor eterno vejo ensejo lábios que brilham
E nos meus filhos amor etéreo ensejo meu desejo que brilhem
Em casa nas asas da ternura as travessuras que infantes trilham
8
2x
Meus olhos olhavam tudo não enxergavam o futuro sem explicação
Na direção errada não viam nada se viam foi em vão
1
em meus trinta e poucos anos eu via tudo
num acidente a gente sente escuridão e céu profundo
se foram as luzes as cores empalideceu o mundo
2
não enxerguei mais nada como conto de fada faca afiada
cortou me a esperança e como criança virei em nada
bruxuleou me a luz feito um capuz minha pálpebra celada
3
cegueira insólita, solidificada, cerrada , lacrada
não, não vi mais nada nada nada nada nada nada
4
meu mundo parou e congelou a imagem ficou na mente
as ultimas imagens me vem e não saem mesmo que tente
tudo parece que permanece assim como ficou de repente
1
em meus muitos anos há muito não vejo nada
embora envelhecido jamais esquecido vejo a amada
sua doce voz me embriaga e me afaga meiga palavra
2
o rosto da amada envelheceu tanto quanto eu
para mim é o mesmo rosto jovem que se move
mesmo olhar da cor do mar e sorrisos a enfeitar
3
sei que tudo muda que o sol inunda pradarias serenas
para mim anos não passam imagens embaçam apenas
tudo parece que amanhece como das ultimas cenas
4
meus filhos com voz adulta casados já emancipados
têm a mesma face juvenil infantil que os vi em anos passados
5
a cidade mudou o prédio alguém pintou o asfalto já rachou
a novela acabou a gíria se modificou o transito aumentou
a moda se estilizou o sapato afinou . . .
6
mas as cores são as mesmas as novelas mesmos temas
os atores são os mesmos a maldade continua em cena
os odores são os mesmos a política mesmo esquema
7
Eu não vi a modernidade mas vivi a globalização
Conheci outras cidades medindo meus passos pelo chão
Meu laptop ouço a voz sim de todos voz na escuridão
8
Meus olhos são as minhas mãos meus ouvidos são minha visão
O braile nos meus dedos contam muitos segredos como um clarão
Eu vivo como todo mundo digo tudo que tenho a dizer
Quem é vivo sempre espera pois eu vivo nesta terra com muito prazer


(Fernando Kieuteka 'Kieltyka')